domingo, 5 de abril de 2015

Serra da Canastra

A viagem à Serra da Canastra estava engatilhada desde o último feriado prolongado, a saber, desde o feriadão de Carnaval. A ideia inicial era juntar a turma, pegar a bicicleta e sair pedalando pela estrada a fora até a Serra da Canastra — indiferente àquela festividade "imoral e pagã" que assolava o país inteiro. Mas no dia D, conforme o esperado, todo mundo deu para trás, claro. Era carnaval, oras, sinônimo de muita festa e esbórnia e gandaia. O certo é que, em termos de folia, o feriado de Páscoa é bem menos representativo que o de Carnaval, então dessa vez não houve desculpa possível.

Saímos de São Paulo na quinta-feira (2) às 19h e fizemos o primeiro trajeto de carro. Depois de aproximadamente 9 horas de estrada e 600km percorridos, chegamos em Belo Horizonte muito cansados. Dormimos na casa da minha tia Vera, onde deixamos o carro e uma imensa bagunça, diga-se de passagem. Por volta das 15h, devidamente descansados e alimentados, já estávamos pedalando pela BR-262 rumo a São Roque de Minas. O sol estava muito escaldante, como bem ressaltou a tia Vera, o calor estava mesmo de rachar mamona no asfalto. Só que ninguém fez corpo mole.

O início de uma viagem realizada em grupo sempre tem um ânimo diferente. Não só o início, acho que a viagem inteira. Para dizer a verdade, o mais legal de pedalar com os amigos é a certeza de saber que um está ali para auxiliar o outro, aliás, é esse o verdadeiro sentido de qualquer equipe, seja profissional ou só de fim de semana.  

PRIMEIRA PARADA: DIVINÓPOLIS
Como já disse, saímos de Belo Horizonte pela BR-262 até uma entrada antes de Pará de Minas, virando à esquerda numa rodovia (não lembro o nome agora) que vai para Divinópolis (esse caminho é mais bonito, por causa das montanhas, mas também é um pouco mais longo). Esse trecho de estrada foi muito bom de fazer, tinha um bom acostamento e um bom pedaço só com descida. Chegando em Divinópolis, encontramos um posto que pertence a empresa que administra a MG-050 e que serve para descanso dos motoristas. Esse tipo de lugar é sempre uma mão na roda para quem precisa descansar: oferece sombra, água fresca, loja de conveniência e até chuveiro elétrico. Depois de voltar para a rodovia, tivemos que ficar um pouco mais atentos, pois apesar do acostamento, as duas pistas estavam movimentadas.

Não marquei exatamente a distância, mas um pouco antes de São Roque de Minas, pegamos um atalho de terra que, para a minha desgraça, acabou se tornando uma espécie de estrada de areia movediça. Sério, dava até para pedalar, mas pelo que me lembro, ganhar velocidade era quase impossível. Por pouco não fomos tragados. Confesso que não teve muita graça. No começo da noite, já em São Roque de Minas, paramos em um vilarejo pequeno e muito calmo, me senti seguro a ponto de deixar a bicicleta do lado de fora da pousada, não sem antes pedir autorização ao dono. Minha ideia era dormir até morrer, mas fui o último a pegar no sono e o primeiro a acordar.

Acordei antes mesmo do dia clarear e tomei um café da manhã reforçado (matei a saudade de comer cuscuz de milho). Depois do cafezão da manhã, arrumamos tudo e seguimos finalmente para a tão esperada Serra da Canastra. Aquele lugar fantástico!

SUBINDO AO CÉU
Foram aproximadamente 5km de descida, em uma estrada de terra cheia de pedras e buracos, o cenário perfeito para levar muitos tombos. Felizmente sou muito habilidoso e não levei sequer uma queda. Depois de um pouco de descida, realizada a contento, veio a subida mais desumana que já enfrentamos em todos esses anos (poucos) de bicicleta. Uma ladeira capaz de provocar cãibras até onde Deus duvida. E quando pensamos que havia acabado: mais subida. Depois de subir quase até o céu, alguns quilômetros pedalando vigorosamente, só o que se pode esperar é mais um pouco de subida. Dica para a vida: não vale a pena encarar esse trecho no final do dia, sob pena de perder o movimento das pernas. Mas verdade seja dita: não me arrependo nenhum pouco, apesar das ladeiras, foi o trecho mais bonito da viagem.

Pode parecer besteira da minha parte, mas pedalar ouvindo o barulhinho de água e olhando cachoeiras do alto faz a gente esquecer qualquer dificuldade por pior que seja. As ladeiras eternas, as cãibras na panturrilha, as dores nos músculos. Tudo vira detalhe.

CANASTRA PARTE ALTA

A viagem de volta foi bem tranquila, feita em um ritmo bem mais leve, sem surpresas no caminho e o tempo gasto foi bem menor também. Ou seja, como costuma ser o retorno de qualquer viagem. Conhecer a Serra da Canastra, mesmo que sem muito tempo para aproveitar todas as coisas, era uma vontade que me acompanhava desde a adolescência, algo que sempre quis fazer. Dessas vontades que a gente tem, mas que, por qualquer razão, vai deixando para depois. Agora já posso riscar esse item da lista.

PRINCÍPIO DA VIDA

segunda-feira, 30 de março de 2015

Réquiem

Chegou bem perto da janela. Olhou para baixo. Viu os prédios, as pessoas e viu a calçada. Passou alguns minutos olhando para a calçada. Eram 9 andares abaixo dele. Ficou pensando e ponderando em termos físicos: aceleração da gravidade — 10m/s², logo 9x3, aproximadamente uns 27 metros. Mas ainda tem o primeiro e o segundo subsolos (que desse lado do prédio ficam à altura do solo) e o térreo, então na realidade tem uns 11 andares (uns 32 metros chutando por baixo). Havia esquecido a fórmula, mas sabia que seria uma porrada e tanto contra o solo. Continuou olhando a calçada e pensando se cairia sobre ela ou sobre o asfalto. Depois ficou cavucando as memórias. Se lembrou de várias coisas, sobretudo, de uma música: Construção, do Chico Buarque.
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Boa música, essa. Pensou em procurar o cd para escutar no carro. Seu carro, comprado há pouco tempo, estava novo ainda. Com quem iria ficar? Com uma de suas irmãs, provavelmente. Mas queria deixar para algum amigo, alguém que não fosse da família, mas que também fosse importante na sua vida. Como um presente póstumo. Tentou encontrar o nome de algum conhecido que correspondesse a essa descrição. Ninguém.

Depois imaginou seu enterro. Achou graça de imaginar o próprio enterro: as pessoas chorando em volta do caixão, pessoas que mal conhecia, chorando e lamentando sua morte, só porque tinham algum grau de parentesco ou coisa que o valha. O que será que falariam a seu respeito? Sempre dizem mentiras a respeito do morto nesse tipo de ocasião. Dizem que era um bom sujeito, que era inteligente, que era legal, que tinha futuro, que isso e aquilo. Tudo conversa. Será que chamariam seus colegas de trabalho?

Mudou seu foco.

Lembrou-se de algumas meninas. Será que alguma delas tomaria conhecimento? Provavelmente não. Só muito tempo depois, mas nem iriam chorar. Pensariam que foi uma pena, mas não dariam muita importância. Analisando friamente ele via que não fazia muita diferença na vida de qualquer pessoa. Talvez tivessem que contratar carpideiras (será que ainda executam essa função?). Não teria quase ninguém, afinal.

Olhou-se e pensou em quanto ficaria o caixão. Será que o seguro de vida seria o bastante para cobrir o gasto? Não lhe agradava a ideia de trazer prejuízos a sua família.
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Uma voz despertou-lhe da divagação suicida:

– Conferiu o orçamento da próxima etapa da obra que mandei pra você?

– Sim. Aliás, tive que refazer tudo, estava completamente errado.

...


Às vezes, a incompetência humana pode salvar vidas.

domingo, 29 de março de 2015

Nada pessoal

Até consigo entender uma pessoa que confesse gostar daquela merda barulhenta que o Marilyn Manson faz e tem o desplante de chamar de música — com muito esforço, posso compreender tamanha estupidez. Afinal de contas, reza a lenda que gosto é uma coisa que não se discute. ENTÃO VÁ! FAZ O QUE TU QUERES! POIS É TUDO DA LEI!

Só não me peça para entender o que leva um ser humano, com o sentido da visão em perfeito estado e com alguma noção (qualquer uma, a menor que seja) da realidade, a usar uma camiseta com aquele, aquela, aquilo, enfim, aquele ser asqueroso, aquela criatura grotesca estampada no peito.

Claro que não sou obrigado a compreender o que leva as pessoas a fazerem todas as coisas do mundo. Assim como as pessoas também não são obrigadas a entenderem que, a cada vez que tem festival de rock em São Paulo e a cidade é suplantada por tipos desse gênero, a minha vontade é puxar uma submetralhadora e mandar um bom punhado dessa corja para o último círculo do inferno.

Você quer sair por aí com o Marilyn Manson estampado no peito, mostrando a bunda no meio da rua, se achando o pica das galáxias, tal e qual um retardado, correto? Pois bem. Eu quero metralhar você, sua namorada, seus amigos, seus parentes, os parentes dos seus amigos, seus vizinhos, os parentes dos seus vizinhos e assim por diante.

Mas não pense que é por causa da sua camiseta horrível do Marilyn Manson. Não mesmo. Onde já se viu, matar por um motivo tão besta? É só pelo fato de você estar respirando.

Cada um, cada um.