Outro dia sintonizei em uma rádio qualquer, dessas rádios que a gente nunca sabe o nome (mas também não importa muito
além do mais, quando eu digo que sintonizei em alguma coisa, a obrigação de vocês é de acreditar!) e comecei a ouvir o que parecia ser um programa só de trilhas sonoras da Disney. Eu teria gostado bem mais se, durante o trajeto de casa até o trabalho, o pessoal não tivesse tocado tanta música de desenhos dos anos 50. Acho aqueles arranjos instrumentais muito fodas, mas aqui entre nós, existem certas exceções.
Nunca consegui, por exemplo, nutrir qualquer simpatia pela maioria dos personagens. Acho eles insossos e típicos demais. Especialmente aquele rato asqueroso do Mickey Mouse. Na fase gloriosa do "politicamente correto", marcou bobeira o marketeiro que não usou aquele roedor estúpido como rato-propaganda. Não dá para imaginar o Mickey sendo indelicado, roubando uma garrafinha de vodca no supermercado ou passando a mão numa gostosa no baile funk. Ele só não conseguiu arruinar o Fantasia porque não encarnou o papel de bonzinho, aliás, graças a uma desobediência dele, a sequência do Aprendiz de Feiticeiro é uma das melhores do filme. A trilha sonora ajuda um bocado, verdade, mas não vamos limar totalmente o mérito do velho Walt nesse caso.
Pior do que o Mickey, só mesmo a baranga orelhuda da Minnie. Os dois formam o velho estereótipo de casal perfeito: enquanto ele supostamente "pensa", ela se enfeita (tudo em vão) e fala merda, muita merda. Fêmeas.
Agora verdade seja dita, Walt Disney não criou lá muita coisa interessante. Os longa-metragens, em sua maioria, eram adaptações de contos seculares que foram cuidadosamente registrados pelos irmãos Grimm e espertamente filmados pela Disney (O Rei Leão é resultado da adaptação de várias histórias bíblicas, e boatos dão conta de que até Hamlet está no balaio). De bom dele, só os desenhos "especiais" onde não pipocam os personagens típicos. Um dos mais memoráveis, de longe, é o do
touro Ferdinando. Gosto bastante daquele chifrudo. Mas aquele em que o Pateta aparece como motorista com dupla personalidade (um anjo como pedestre, mas um demônio quando suas mãos assumem o volante) também é uma pequena obra prima.
Devo ter em casa uns 5 filmes de desenho animado, sendo que o único da Disney é O Rei Leão. Não tenho culpa se não sou da geração que cultua a ingenuidade da infância. Meu barato era ficar cagado de emoção quando o Coiote se estrepava nas mãos do Papa-Léguas; mandar a minha irmã "tatuar" o Olho de Thundera no meu braço; torcer para o Dick Vigarista se lascar; e desejar a morte da Uni, aquele unicórnio maldito. Se bem que eu assisti muito a Tv Cultura também. Pois é, a televisão da minha casa costumava ficar ligada na Tv Cultura durante o dia. Passei uma boa parte da infância com o Euclides e o Máscara, com o Lucas do Mundo da Lua, Xis (o fantoche, não o rapper) e com os peixes do Glub-Glub. Lembro demais que naquela época eu queria muito ir pro centro só pra ver se a repórter do Jornal Rá-Tim-Bum fazia comigo aquela brincadeira de adivinhar o gosto dos alimentos. Eu falava pra minha mãe que se ela me desse salame, eu ia falar que não sabia se era salgado só para ganhar mais um pedaço. E se ela me desse um limão, eu chutava a canela dela.
Sempre achei o programa Rá-Tim-Bum (na verdade, a Tv Cultura toda, em geral) um baita referencial para a arquitetura. Sério mesmo. Meio pop art, arquitetura estilizada, cores e estampas malucas, takes toscos, mas com um certo efeito futurista... tudo muito impressionante! Sempre paguei o maior pau para o staff daquela época e pago até hoje. Inclusive, tem um trecho do documentário Fernando Meirelles, Um Certo Olhar no qual ele (que também é arquiteto, diga-se de passagem) fala um pouco sobre essa minha impressão a respeito do aspecto arquitetônico daquela parada toda. Ou seja, eu não estava viajando na maionese – não absolutamente.
Mas então. Falando em documentários (mas sem voltar a mencionar desenhos Disney, programação da Tv Cultura ou Fernando Meirelles – até porque eu não teria mais nada a falar sobre isso), me lembrei agora de um documentário daqueles do Discovery (cheio de imagens impressionantes em slow motion com as legendinhas passando embaixo) sobre animais que matam por motivos que vão além da necessidade de alimentação. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os golfinhos (isso mesmo, os simpáticos, imbecis e encantadores golfinhos) matam (eles matam e matam a sangue frio) integrantes de bandos rivais e, não satisfeitos, ainda acabam com a raça de todos os filhotes para impedir que seu antecessor tenha seus genes disseminados! Inclusive, esse documentário mostrou que golfinhos são animais extremamente violentos e letais. E de repente, a realidade caiu sobre mim como um piano de cauda despencando do topo de um arranha-céu de 80 andares.
E tem gente que ainda diz que só o ser humano mata seus semelhantes por motivos que vão além da fome...
No fim das contas, acho que poderia escrever um post melhor sobre a Disney (e apenas sobre a Disney). Só que não vai ser dessa vez. Mas o pior é saber que o tempo vai passar e eu não vou escrever porcaria nenhuma.