sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Menos um reconhecimento de padrões, mais um déjà vu

Sempre que assisto um filme e identifico um padrão de comportamento, ou tenho a impressão de já ter visto aquilo em outro canto, nunca deixo de pensar que todo mundo já deve ter percebido antes de mim. Isso é o que chamo de "arroubo de modéstia" — um evento curioso que, de vez em quando, acomete este que vos escreve.

Depois de conversar com algumas pessoas descubro que nem todo mundo percebeu o pulo do gato, ou então, percebeu com um entendimento diferente. A próxima etapa é pensar que as pessoas não tocam no assunto porque é algo muito óbvio e poucos tem peito pra enfrentar o constrangimento de dizer uma coisa assim tão besta. Mas depois percebo que, nesse mundo velho sem porteira, o que não falta é gente corajosa o suficiente pra enfrentar o constrangimento de dizer outras declarações tão mais bestas.

Finalmente, jogando pra escanteio esses dois parágrafos dispensáveis, quero deixar registrado uma pequena nota aleatória — logo abaixo porque aqui não cabe mais nada:

ATRÁS DE VOCÊ, CLARICE!
A cena clássica do filme O Silêncio dos Inocentes (1991) é muito parecida com o ponto mais eletrizante do filme Janela Indiscreta (1954). Não digo que é uma referência clara porque tudo nesse mundo velho sem porteira virou referência — um vampiro, um lobisomen, um saci-pererê, uma unha encravada, uma barraca de pastel na feira de domingo, um feriado no sítio dos seus avós, quando você montou um cavalo xucro que te arremessou a alguns metros de distância, ou seja, qualquer coisa. Mas, verdade seja dita, as cenas são praticamente gêmeas. Estava a procura de algo que pudesse comprovar a ligação oficial entre esses dois clássicos, mas não encontrei nenhum documento que prova que o Batima é viado nenhuma informação concreta e confiável.

São montagens semelhantes. Só isso. Se eu fosse o último bastião da justiça (um desses sentinelas de plantão que apontam plágio em tudo que se move, que tem por esporte achar clone onde não existe), eu poderia gritar que o genial Jonathan Demme copiou descaradamente o não menos genial Alfred Hitchcock. Mas não sou esse tipo de gente.

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ACENDE A PORRA DA LUZ!
O SILÊNCIO DOS INOCENTES: No quarto escuro, o assassino Buffalo Bill (Ted Levine) usa lentes especiais pra enxergar e atacar a detetive Clarice Starling (Jodie Foster). É uma cena tão apavorante que chega a dar um calafrio. Sempre fico de orelha em pé quando ela entra no quarto. Não só por causa do breu total, mas também por conta do desassossego que é ver Clarice tateando a escuridão, sem conseguir enxergar um palmo a frente do nariz, enquanto um serial killer a observa o tempo todo. Perco o sono só de me imaginar nessa situação.

"ZÉ POVINHO É FODA" - BROWN, Mano
JANELA INDISCRETA: No quarto escuro, o fotógrafo Jeffries (James Stewart) usa o flash da câmera pra enxergar e se defender do brutamontes espancador de vizinho bisbilhoteiro. É outra cena que, apesar de pequena, consegue causar uma expectativa ruim na gente. Tudo porque Jeffries, além de estar sozinho no apartamento, ainda está com uma perna quebrada. Quer dizer, mesmo se ele quisesse, não teria como passar sebo nas canelas e dar o fora dali. O frio na barriga é por conta do terror diante da iminência de uma surra daquelas de criar bicho.

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Como eu disse, montagens muito semelhantes, mas que não são idênticas (eita ferro!)
Enfim, agora todo mundo já pode dizer que tinha reparado nisso há muito tempo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Bom gosto acontece

Aos 8 anos de idade, descobri a música mais legal do mundo, escondida numa fita cassete do meu pai. No lado A, estava escrito Springsteen e, no lado B, o meu favorito, Paralamas. E no meio de todas aquelas músicas, a mais legal do mundo, Caleidoscópio. Uma das melhores introduções do rock nacional e uma das melhores letras já escritas.

Mais ou menos assim:

A banda abre os trabalhos, intencionalmente atravessada no primeiro compasso. A bateria de João Barone faz tudo se encaixar na hora certa. Eles sabem como, quando e o que fazer pra tudo parecer fantástico. São ótimos instrumentistas: Barone, Bi Ribeiro, João Fera e, especialmente, Bidú Cordeiro e Monteiro Jr. — responsáveis pelos metais!

Do ápice da introdução, em que determinam a pegada central, numa espécie de blues paralâmico, eles fazem uma parada estratégica. Todos sabem que é chegada a hora dele. Acima de tudo, todos sabem que, mesmo os titãs mais poderosos do Olimpo, cujas histórias são lembradas por anos e anos a fio, abaixam o tom perante o rei dos deuses.

Não é preciso apagar a luz
Eu fecho os olhos e tudo vem
Num caleidoscópio sem lógica
Eu quase posso ouvir a tua voz
Eu sinto a tua mão a me guiar
Pela noite a caminho de casa

E trata-se de um deus tão singular. A cadeira de rodas. A voz que outrora era firme e macia, agora frágil e errante. Herbert tenta com que suas palavras soem no mesmo tom abandonado da fiel escudeira. E os acordes feitos na guitarra vão do triste ao raivoso.

Quem vai pagar as contas desse amor pagão e te dar a mão
Me trazer a tona pra respirar
Quem vai chamar meu nome ou te escutar
Me pedindo pra apagar a luz
Amanheceu é hora de dormir
Nesse nosso relógio sem órbita
Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Pra gente não ter nunca mais que terminar

O solo mais esperado. A guitarra virtuosa, que até aqui teve pouca participação, mas é sua hora de alcançar as estrelas. Herbert costuma fechar os olhos para tocar, mas a forma como manipula a sua guitarra dispensa qualquer sentido além do auditivo. Toca com maestria, como quem conhece cada corda do instrumento como a palma da mão.

***

Herbert ressurge. Ele sabe que precisa continuar. E se a primeira parte da música parecia de outra galáxia, amigos, ainda não sabíamos um terço da missa, pois um fenômeno misterioso acontece quando ele evoca outra vez "Quem vai pagar as contas desse amor pagão", e prolonga até o limite aceitável para quem está cantando sentado.

Quem vai pagar as contas desse amor pagão e te dar a mão
Me trazer à tona pra respirar
Quem vai chamar meu nome ou te escutar
Me pedindo pra apagar a luz
Amanheceu é hora de dormir
Nesse nosso relógio sem órbita
Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Pra gente não ter nunca mais que terminar

Herbert sabe que não precisa dizer mais nada. Não precisa cantar tudo de novo. Então sua guitarra grita enlouquecidamente. Alto. Solta a voz contida em cada grande guitarra.

Para fechar com chave de ouro, João Barone, o gênio das baquetas. Sua missão final é descer o braço na bateria e fim de papo — e não se pode querer mais de um baterista.

Agora, só resta para a banda fazer as últimas considerações e dizer adeus. Deixando a certeza que, de vez em quando, grandes lendas mitológicas se unem pra fazer um som.


NÃO FALE COMIGO NOVAMENTE ENQUANTO NÃO ASSISTIR A ESTE VÍDEO MUSICAL!
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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Priorizando

Se você me pede qualquer coisa, essa coisa vai ficar na minha lista de prioridades. Se você me pede duas vezes a mesma coisa, ela vai continuar na minha lista de prioridades, só que cairá algumas posições na tabela. Se você me pede uma terceira vez, a coisa vai continuar na minha lista de prioridades, mas, é claro, sem nenhuma preferência. Se você me pede quatro vezes, meu amigo, você vai ouvir uma sequência de desaforos. Se você me pede cinco vezes, vou acabar fazendo, mas não vai ficar tão boa quanto ficaria se tivesse me pedido uma única vez.