segunda-feira, 13 de julho de 2015

Bom gosto acontece

Aos 8 anos de idade, descobri a música mais legal do mundo, escondida numa fita cassete do meu pai. No lado A, estava escrito Springsteen e, no lado B, o meu favorito, Paralamas. E no meio de todas aquelas músicas, a mais legal do mundo, Caleidoscópio. Uma das melhores introduções do rock nacional e uma das melhores letras já escritas.

Mais ou menos assim:

A banda abre os trabalhos, intencionalmente atravessada no primeiro compasso. A bateria de João Barone faz tudo se encaixar na hora certa. Eles sabem como, quando e o que fazer pra tudo parecer fantástico. São ótimos instrumentistas: Barone, Bi Ribeiro, João Fera e, especialmente, Bidú Cordeiro e Monteiro Jr. — responsáveis pelos metais!

Do ápice da introdução, em que determinam a pegada central, numa espécie de blues paralâmico, eles fazem uma parada estratégica. Todos sabem que é chegada a hora dele. Acima de tudo, todos sabem que, mesmo os titãs mais poderosos do Olimpo, cujas histórias são lembradas por anos e anos a fio, abaixam o tom perante o rei dos deuses.

Não é preciso apagar a luz
Eu fecho os olhos e tudo vem
Num caleidoscópio sem lógica
Eu quase posso ouvir a tua voz
Eu sinto a tua mão a me guiar
Pela noite a caminho de casa

E trata-se de um deus tão singular. A cadeira de rodas. A voz que outrora era firme e macia, agora frágil e errante. Herbert tenta com que suas palavras soem no mesmo tom abandonado da fiel escudeira. E os acordes feitos na guitarra vão do triste ao raivoso.

Quem vai pagar as contas desse amor pagão e te dar a mão
Me trazer a tona pra respirar
Quem vai chamar meu nome ou te escutar
Me pedindo pra apagar a luz
Amanheceu é hora de dormir
Nesse nosso relógio sem órbita
Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Pra gente não ter nunca mais que terminar

O solo mais esperado. A guitarra virtuosa, que até aqui teve pouca participação, mas é sua hora de alcançar as estrelas. Herbert costuma fechar os olhos para tocar, mas a forma como manipula a sua guitarra dispensa qualquer sentido além do auditivo. Toca com maestria, como quem conhece cada corda do instrumento como a palma da mão.

***

Herbert ressurge. Ele sabe que precisa continuar. E se a primeira parte da música parecia de outra galáxia, amigos, ainda não sabíamos um terço da missa, pois um fenômeno misterioso acontece quando ele evoca outra vez "Quem vai pagar as contas desse amor pagão", e prolonga até o limite aceitável para quem está cantando sentado.

Quem vai pagar as contas desse amor pagão e te dar a mão
Me trazer à tona pra respirar
Quem vai chamar meu nome ou te escutar
Me pedindo pra apagar a luz
Amanheceu é hora de dormir
Nesse nosso relógio sem órbita
Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Pra gente não ter nunca mais que terminar

Herbert sabe que não precisa dizer mais nada. Não precisa cantar tudo de novo. Então sua guitarra grita enlouquecidamente. Alto. Solta a voz contida em cada grande guitarra.

Para fechar com chave de ouro, João Barone, o gênio das baquetas. Sua missão final é descer o braço na bateria e fim de papo — e não se pode querer mais de um baterista.

Agora, só resta para a banda fazer as últimas considerações e dizer adeus. Deixando a certeza que, de vez em quando, grandes lendas mitológicas se unem pra fazer um som.


NÃO FALE COMIGO NOVAMENTE ENQUANTO NÃO ASSISTIR A ESTE VÍDEO MUSICAL!
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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Priorizando

Se você me pede qualquer coisa, essa coisa vai ficar na minha lista de prioridades. Se você me pede duas vezes a mesma coisa, ela vai continuar na minha lista de prioridades, só que cairá algumas posições na tabela. Se você me pede uma terceira vez, a coisa vai continuar na minha lista de prioridades, mas, é claro, sem nenhuma preferência. Se você me pede quatro vezes, meu amigo, você vai ouvir uma sequência de desaforos. Se você me pede cinco vezes, vou acabar fazendo, mas não vai ficar tão boa quanto ficaria se tivesse me pedido uma única vez.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Aqui é Corinthians

Me impressiona a capacidade que alguns torcedores tem de discriminar certas cores apenas por serem símbolos de um time de futebol rival. Sábado, por exemplo, estava parado no semáforo e um motorista de ônibus começou a buzinar feito louco. Ele estava usando um agasalho antigo do Corinthians e apontava para mim, enquanto fazia sinal de negativo com o dedo indicador — sim, o indicador. Não entendi a gozação de primeira porque sou lerdo, a ficha só foi cair quando ele mostrou a própria blusa: o cara achou que eu fosse palmeirense porque eu estava usando uma camisa verde com uma faixa diagonal branca. Nada a ver com o uniforme do Palmeiras.

Isso me lembrou uma coisa.

Há algum tempo, meu amigo André, o são-paulino mais xiita que conheço, me cobrou uma dívida um tanto razoável: ir até o Morumbi para assistir a um jogo do São Paulo, uma vez que alguns poucos meses antes ele havia ido ao Pacaembu comigo para assistir ao Corinthians.

Houve um contratempo na hora de comprar o bilhete: o dinheiro que tínhamos não era o suficiente para dois ingressos e a bilheteria não aceitava cartões nem cheques. Por sorte, um membro da torcida que estava na fila percebeu o revés e passou um boné recolhendo donativos com vários outros torcedores para inteirar a nossa entrada. Foi bem bonito.

Dentro do estádio, ficamos na arquibancada atrás de um dos gols, bem próximo da torcida organizada são-paulina. Apesar de estar tranquilo, não pude deixar de notar os olhares desconfiados. Meu erro: além de não estar fazendo o famoso gesto da torcida Independente, estava com um moletom azul em um jogo crucial (oitavas de final da Libertadores) contra o tricolor gaúcho Grêmio.

Mas, no final, tudo acabou bem — bem até demais. O timeco do São Paulo, naquela noite, venceu a peleja por 1x0. E eu, mesmo vestindo cores erradas e torcendo secretamente pelo time adversário, consegui voltar para casa com a integridade física preservada.

Mais legal ainda foi ter assistido, uma semana depois, a eliminação do "soberano tricolor paulista", no aconchego do meu lar... e vestindo o manto sagrado corintiano.