sábado, 31 de outubro de 2015

Comentando o comentário

Há algo de muito estranho nas pessoas, e essa estranheza pode ser percebida em toda a sua força quando você entra no seu blog — que anda largado às moscas, diga-se — no final de uma tarde vazia e encontra um comentário perdido nos arquivos contendo os seguintes dizeres: "O seu site está superlegal. Continue sempre assim. Beijinhos". A constatação de estar falando com as paredes, mesmo na internet, deve ser angustiante. Bom, não é a primeira vez nem será a última. Eu sei lá como essa gente vem parar aqui. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Supernovas

Nenhuma pessoa no mundo consegue superar as unidades astronômicas. De uma galáxia à outra, são tantos os quilômetros que é quase impossível calcular com precisão o intervalo espaço-temporal. Nem mesmo a luz, conhecida por vencer incontáveis quilômetros em fração de segundos, consegue atravessar indiferente a vastidão sombria e sem fim — até para ela é necessário muita obstinação. Tamanha lonjura faz a humanidade parecer pequena demais comparada a um grãozinho de areia do Universo.

Mas, cá entre nós, eu não participo de nenhuma estupefação científica metida à besta. Não, mesmo. A meu ver, muito mais acachapante e perturbadora é a distância que existe, por exemplo, entre mim e a menina da tatuagem de borboleta. Se eu tivesse que arriscar um palpite, apostaria em centenas de milhões de anos-luz de distanciamento.

Geograficamente falando, uma simples régua graduada, dessas vendidas em papelaria, daria conta de mensurar a distância concreta — uma vez que, no mapa, estamos a um oceano Atlântico um do outro. Mas, nas proporções metafísicas, não há triangulação geodésica e nenhuma escala aceitável — por esse ângulo, estamos separados por densas nuvens de poeira e gás, nebulosas impenetráveis e todo tipo de solidão espacial.

Como aquelas estrelas que um dia se apagam, mas, ainda assim, continuam brilhando intensamente, quem sabe a menina da tatuagem de borboleta já tenha desaparecido no meu céu — embora eu não queira me dar conta disso. E eu, possivelmente esquecido há milênios, não faço mais parte das constelações da menina da tatuagem de borboleta.
 
É, vai saber.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Menos um reconhecimento de padrões, mais um déjà vu

Sempre que assisto um filme e identifico um padrão de comportamento, ou tenho a impressão de já ter visto aquilo em outro canto, nunca deixo de pensar que todo mundo já deve ter percebido antes de mim. Isso é o que chamo de "arroubo de modéstia" — um evento curioso que, de vez em quando, acomete este que vos escreve.

Depois de conversar com algumas pessoas descubro que nem todo mundo percebeu o pulo do gato, ou então, percebeu com um entendimento diferente. A próxima etapa é pensar que as pessoas não tocam no assunto porque é algo muito óbvio e poucos tem peito pra enfrentar o constrangimento de dizer uma coisa assim tão besta. Mas depois percebo que, nesse mundo velho sem porteira, o que não falta é gente corajosa o suficiente pra enfrentar o constrangimento de dizer outras declarações tão mais bestas.

Finalmente, jogando pra escanteio esses dois parágrafos dispensáveis, quero deixar registrado uma pequena nota aleatória — logo abaixo porque aqui não cabe mais nada:

ATRÁS DE VOCÊ, CLARICE!
A cena clássica do filme O Silêncio dos Inocentes (1991) é muito parecida com o ponto mais eletrizante do filme Janela Indiscreta (1954). Não digo que é uma referência clara porque tudo nesse mundo velho sem porteira virou referência — um vampiro, um lobisomen, um saci-pererê, uma unha encravada, uma barraca de pastel na feira de domingo, um feriado no sítio dos seus avós, quando você montou um cavalo xucro que te arremessou a alguns metros de distância, ou seja, qualquer coisa. Mas, verdade seja dita, as cenas são praticamente gêmeas. Estava a procura de algo que pudesse comprovar a ligação oficial entre esses dois clássicos, mas não encontrei nenhum documento que prova que o Batima é viado nenhuma informação concreta e confiável.

São montagens semelhantes. Só isso. Se eu fosse o último bastião da justiça (um desses sentinelas de plantão que apontam plágio em tudo que se move, que tem por esporte achar clone onde não existe), eu poderia gritar que o genial Jonathan Demme copiou descaradamente o não menos genial Alfred Hitchcock. Mas não sou esse tipo de gente.

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ACENDE A PORRA DA LUZ!
O SILÊNCIO DOS INOCENTES: No quarto escuro, o assassino Buffalo Bill (Ted Levine) usa lentes especiais pra enxergar e atacar a detetive Clarice Starling (Jodie Foster). É uma cena tão apavorante que chega a dar um calafrio. Sempre fico de orelha em pé quando ela entra no quarto. Não só por causa do breu total, mas também por conta do desassossego que é ver Clarice tateando a escuridão, sem conseguir enxergar um palmo a frente do nariz, enquanto um serial killer a observa o tempo todo. Perco o sono só de me imaginar nessa situação.

"ZÉ POVINHO É FODA" - BROWN, Mano
JANELA INDISCRETA: No quarto escuro, o fotógrafo Jeffries (James Stewart) usa o flash da câmera pra enxergar e se defender do brutamontes espancador de vizinho bisbilhoteiro. É outra cena que, apesar de pequena, consegue causar uma expectativa ruim na gente. Tudo porque Jeffries, além de estar sozinho no apartamento, ainda está com uma perna quebrada. Quer dizer, mesmo se ele quisesse, não teria como passar sebo nas canelas e dar o fora dali. O frio na barriga é por conta do terror diante da iminência de uma surra daquelas de criar bicho.

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Como eu disse, montagens muito semelhantes, mas que não são idênticas (eita ferro!)
Enfim, agora todo mundo já pode dizer que tinha reparado nisso há muito tempo.