sábado, 16 de abril de 2016

Um, dois, três, catorze...

A conversa estava desagradável. Raimundo dizia, ajeitando o guardanapo sobre o colo:

— Aquele seu projeto não vingou por culpa minha. Deixei pra última hora, daí já viu...

Nessa hora, Dionísio desferiu-lhe um soco poderoso no meio do queixo. O corpo de Raimundo, projetado para trás, derrubou a cadeira do sujeito que estava na outra mesa, um garçom que passava com uma bandeja e copos de suco de abacaxi com hortelã.

— Se o que é importante pra mim não é importante pra você, coisas que pra você são importantes, como seu rosto, não são pra mim — disse Dionísio, com insuspeitada ira.

Todos no recinto aplaudiram de pé.

*

Fim.

sábado, 31 de outubro de 2015

Comentando o comentário

Há algo de muito estranho nas pessoas, e essa estranheza pode ser percebida em toda a sua força quando você entra no seu blog — que anda largado às moscas, diga-se — no final de uma tarde vazia e encontra um comentário perdido nos arquivos contendo os seguintes dizeres: "O seu site está superlegal. Continue sempre assim. Beijinhos". A constatação de estar falando com as paredes, mesmo na internet, deve ser angustiante. Bom, não é a primeira vez nem será a última. Eu sei lá como essa gente vem parar aqui. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Supernovas

Nenhuma pessoa no mundo consegue superar as unidades astronômicas. De uma galáxia à outra, são tantos os quilômetros que é quase impossível calcular com precisão o intervalo espaço-temporal. Nem mesmo a luz, conhecida por vencer incontáveis quilômetros em fração de segundos, consegue atravessar indiferente a vastidão sombria e sem fim — até para ela é necessário muita obstinação. Tamanha lonjura faz a humanidade parecer pequena demais comparada a um grãozinho de areia do Universo.

Mas, cá entre nós, eu não participo de nenhuma estupefação científica metida à besta. Não, mesmo. A meu ver, muito mais acachapante e perturbadora é a distância que existe, por exemplo, entre mim e a menina da tatuagem de borboleta. Se eu tivesse que arriscar um palpite, apostaria em centenas de milhões de anos-luz de distanciamento.

Geograficamente falando, uma simples régua graduada, dessas vendidas em papelaria, daria conta de mensurar a distância concreta — uma vez que, no mapa, estamos a um oceano Atlântico um do outro. Mas, nas proporções metafísicas, não há triangulação geodésica e nenhuma escala aceitável — por esse ângulo, estamos separados por densas nuvens de poeira e gás, nebulosas impenetráveis e todo tipo de solidão espacial.

Como aquelas estrelas que um dia se apagam, mas, ainda assim, continuam brilhando intensamente, quem sabe a menina da tatuagem de borboleta já tenha desaparecido no meu céu — embora eu não queira me dar conta disso. E eu, possivelmente esquecido há milênios, não faço mais parte das constelações da menina da tatuagem de borboleta.
 
É, vai saber.