quinta-feira, 1 de maio de 2014

Senna

O fatídico 1° de maio de 1994 foi diferente dos tantos outros domingos do outono de 1994. 20 anos depois e ainda lembro dele como um dia sombrio, o que significa que deve ter chovido em São Paulo  ao menos nublado. 

Não se falava em outra coisa na televisão: o trágico acidente que matou Ayrton Senna, no autódromo de Ímola, na Itália. Pessoas foram lá para casa, e lembro de ouvir quase sem querer opiniões abismadas e tristes sobre a morte de Senna. É essa a impressão que ficou daquele domingo: não era a morte de um ente querido ou de um amigo da família, mas era a morte de alguém que de alguma forma tinha sido importante e amado. Era tudo tão inesperado, todo mundo estava realmente abalado com aquilo. 

Menos eu. Eu estava de saco cheio mesmo. Eu queria era jogar video-game.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Algum vocabulário e muito tempo livre

De tempos em tempos, me ponho a pensar em nomes substitutos para o Edgariando. Mas o negócio aqui tem regras. Não é uma coisa aleatória. O processo obedece os mais rigorosos padrões de qualidade existentes. A métrica perfeita deve prevalecer, como uma letra do Chico Buarque. A sonoridade deve ser precisa e impecável, como uma orquestra experiente.

Exemplos:
  • CAMINHANDO E CANTANDO
  • VOU ESTAR ENVIANDO
  • UMA MOBILETE ANDANDO
  • DE VEZ EM QUANDO
  • NÃO É PRA TANTO
  • LEONARDO & LEANDRO

Pois é.

sábado, 26 de abril de 2014

Em algum lugar do passado

Todo esse silêncio por aqui está me deixando angustiado. Um texto é o maior gesto de revolta da minha parte contra essa pasmaceira da qual me vejo acometido nos últimos dias. Ou semanas. Ou meses. Acho que meses é o mais adequado, mas quem quiser falar em quinzenas, esteja à vontade.

Honestamente, não sei dizer ao certo quanto tempo eu não penso em porra nenhuma pra escrever aqui, a única certeza é que o blog está parado tem mais de duas quinzenas. Até porque tem mais (mais, muito mais) de um mês, como eu mesmo já disse, e levando em consideração aquele dito popular que diz que um mês tem duas quinzenas, podemos concluir, portanto, que mais (mais, muito mais) de duas quinzenas se foram.

Duas quinzenas equivalem a trinta dias, para aqueles que desconhecem matemática, apenas português. Mas não muito português, também. Só um pouco. O bastante pra ler essa porcaria e achar que está lendo alguma coisa que preste, quando, na verdade, tudo o que você está fazendo é passando os olhos sobre palavras batucadas por um desocupado entediado, cuja missão, ao escrever esse texto, era apenas roubar um pouco do seu tempo. Se você chegou até aqui, acho que já estou no lucro.

Mas então.

Acho interessante a forma como lembranças de infância habitam nossa cabeça. Para mim, pelo menos, dificilmente é um quadro completo, que permita determinar com precisão como se deu o fato. Na maioria das vezes, são apenas fragmentos parecidos com pedaços de sonhos que tive na noite anterior. Algo inacabado, como provavelmente esse texto será.

Não lembro exatamente quando tudo aconteceu, então vou dizer que foi em algum lugar do passado, entre a primeira série até, mais ou menos, a metade da terceira série. Durante esse período de tempo, fui o feliz proprietário de um Turbo Game CCE compatível com o NES, livre e desimpedido para receber cartuchos japoneses e americanos.

Até hoje não descobri se no âmbito legal a empresa CCE podia mesmo fazer aquilo, ou se ao menos tinha autorização da Nintendo para encher o rabo de dinheiro comercializando Nintendos-genéricos a torto e a direito.

Mas enfim, os jogos funcionavam que era uma beleza e isso era tudo o que importava. Meu primeiro videogame de última geração, amigos! Controles com setas direcionais analógicas, botões A/B, Start e Select. Finalmente eu poderia testar todos os jogos divertidos que eu assistia no programa de games da televisão. Pense num moleque feliz pra caralho! Acho que dois meses mais tarde estava implorando por um Super Nintendo e amaldiçoando o coitado do Turbo Game... ah, os mistérios do coração.

TURBO GAME - A SUPER MÁQUINA DO TEMPO

Mas voltando ao tempo em questão. Meu pai trabalhava numa agência de publicidade e, talvez por conta desse fato, ele estava sempre viajando para cima e para baixo. E havia uma espécie de acordo entre nós — e por "nós" eu me refiro a mim, minha irmã Ana Paula e o Pedro, meu irmão mais velho, mas talvez houvesse mais gente, já que meu pai era mesmo um caso de poesia —, era quase uma "obrigação paterna" trazer presentes pra essa galerinha na bagagem. Claro que eu, com o videogame novinho em folha, passei a azucrinar a vida dele pra me trazer cartuchos novos.

Um belo dia, graças ao destino, aconteceu do velho João Antônio viajar a trabalho para Manaus: o paraíso de todas as tralhas eletrônicas, isento de impostos, contrabando comendo solto, aquela coisa linda de deus. Diante dessa oportunidade, foi mamão-com-açúcar trazer um número elevado de cartuchos inéditos para mim. Alguns pirateados, sim, mas quem ligava?

Uma característica marcante do meu pai: ele era antenado. Bastante. Lia muito sobre um montão de coisas, estava sempre por dentro dos assuntos tecnológicos (de todos os assuntos, na verdade). Vivia indo a lugares e voltando com um bocado de novidades, traduzindo: ele conhecia e gostava das coisas que eu gostava. Nessa época eu tinha todos os jogos mais famosos – Bomberman, Zelda, Castlevania, Punch-Out, Mega Man, entre outros –, mas meu pai sabia muito bem que o Super Mario Bros. 3 era O JOGO MAIS BADALADO DO MOMENTO. Então numa certa noite ele voltou pra casa trazendo um cartucho do Super Mario Bros. 3 na mala!

FELICIDADE
Sei que não tem absolutamente nada a ver com o assunto, mas quem se lembra do primeiro filme do Aranha? Aquela sequência, nos segundos finais do filme, em que só aparece mesmo o aracnídeo se jogando freneticamente entre os prédios de Nova York. Na época quase abri um segundo buraco no DVD de tanto reprisar as melhores cenas. Mas não tinha nenhuma melhor que essa. Os caras conseguiram fazer uma coisa totalmente inverossímil — um sujeito de malha se BALANÇANDO numa CORDA entre EDIFÍCIOS — parecer plausível demais. Algo que na minha cabeça doentia, lendo as revistinhas, ia totalmente contra todas as leis da Física se tornou algo plenamente aceitável. Foi a realização de um sonho!
FELICIDADE

DECERTO, UM DOS MELHORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS

Acho que foi esse o meu erro: era felicidade demais explodindo no peito. 

No meio da afobação de jogar eu corri para o meu quarto já rasgando o plástico do cartucho e já fui me jogando no carpete e arrancando o cartucho antigo e ligando a televisão e enfiando o cartucho do Super Mario Bros. 3 e ligando o videogame e convulsionando diante de... diante de... diante de quadrados defeituosos? Resetei o videogame. Mesmos quadradinhos com defeito. Som estranho também. Nada da musiquinha tema. Tudo bem, resetei de novo. Quando a minha mão encostou no reset foi que eu vi o tamanho da merda: COLOQUEI O CARTUCHO DO LADO CONTRÁRIO. Sim, não restava dúvida, eu esculhambei a porra do cartucho. Já quase chorando, desliguei o videogame, tirei o cartucho e olhei para ele. Talvez ainda houvesse salvação. Fazendo uma prece silenciosa eu dei aquela clássica assoprada milagrosa no cartucho e voltei a colocar, dessa vez do lado certo. E por um instante eu achei mesmo que tudo acabaria bem. Por um momento eu achei mesmo que algum santo padroeiro de cartuchos fosse ouvir minha prece, mas nesse dia eu aprendi que não existe nenhum deus chegado em games. Meus tímpanos ouviam o tema clássico do Mario, mas minhas retinas viam apenas metade da tela.



Sabe-se lá como diabos a memória do jogo conseguiu permanecer intacta, mas alguma parada responsável por reproduzir a imagem do jogo ficou danificada e então só aparecia metade da tela. A metade de baixo algumas vezes, a metade de cima outras tantas, um revezamento quase perfeito.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

When I'm 97

De acordo com o Deathclock, do jeito que toco a minha vida, devo morrer no dia 1º de outubro de 2081, aos 97 anos. A impressão que eu tenho é que esse site foi feito com o objetivo de assustar a galerinha porra-louca. Mostrar que imbecis que fazem o que não devem morrem com antecedência. JAMAIS aos 97 anos.

Só que tenho uma notícia não muito boa para os idealizadores do Deathclock: essa previsão não me deixou sorridente. Pelo contrário, estou puto comigo mesmo e profundamente desapontado. Claro que ser velho não é um crime, velhos são ótimos (são mesmo?), mas nunca pretendi respirar até os 97 anos.

Pensando bem, se eu chegar aos 70 anos já vou me dar por satisfeito. Muito satisfeito. A idade ideal para esticar as canelas.

A satisfação só aumenta quando penso nos segundos que ainda me restam antes de completar 70 anos. No momento exato em que escrevo isso, ainda tenho pela frente pouco mais de 1.275.264.009 segundos de vida. São segundos à beça.

Eu bem sei a infinidade de coisas que cabem dentro de um segundo. Em um segundo, a gente pode viver o que não viveu ao longo de toda uma vida. Em um segundo duas bocas se beijam. Em um segundo uma palavra é dita. E aqui pelos meus cálculos eu tenho mais de um bilhão de segundos à minha disposição.

Graças ao Deathclock, agora eu sei que posso continuar bebendo todas, perdendo noites de sono, entrando no fosso dos jacarés, mandando mais gente ir à merda, torcendo para o Corinthians e comendo toda sorte de besteiras, porque ainda assim vou viver o bastante até me tornar um velho caduco, murcho, careca, broxa, cheio de catarro nos pulmões e tossindo feito um cão sarnento.

Ao Deathclock, deixo aqui meus sinceros agradecimentos. Vou agora mesmo para a espelunca ali da esquina, encher a cara de cachaça e vou comprar o meu primeiro maço de cigarro também.