terça-feira, 16 de junho de 2015

Grande Edgar | Luis Fernando Verissimo

Já deve ter acontecido com você.

— Não está se lembrando de mim?

Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?

Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.

Um, curto, grosso e sincero.

— Não.

Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O “Não” seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

— Não me diga. Você é o… o…

“Não me diga”, no caso, quer dizer “Me diga, me diga”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:

— Desculpe, deve ser a velhice, mas…

Este também é um apelo à piedade. Significa “não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!”. É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor ideia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.

E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.

— Claro que estou me lembrando de você!

Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

— Há quanto tempo!

Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.

— Então me diga quem sou.

Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:

— Pois é.

Ou:

— Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.

— Como cê tem passado?

— Bem, bem.

— Parece mentira.

— Puxa.

(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)

Ele esta falando:

—Pensei que você não fosse me reconhecer…

—O que é isso?!

—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.

—E eu ia esquecer de você? Logo você?

—As pessoas mudam. Sei lá.

— Que ideia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O… o… como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)

— É incrível como a gente perde contato.

— É mesmo.

Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.

— Cê tem visto alguém da velha turma?

— Só o Pontes.

— Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes…)

— Lembra do Croarê?

— Claro!

— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.

— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)

— Rezende…

— Quem?

Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.

— Não tinha um Rezende na turma?

— Não me lembro.

— Devo esta confundindo.

Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.

Ele fala:

— Sabe que a Ritinha casou?

— Não!

— Casou.

— Com quem?

— Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?)

— Claro que conheci! Velho Bituca…

— Pois casaram.

É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.

— E não avisou nada?

— Bem…

— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?

— É que a gente perdeu contato e…

— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.

— É…

— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.

— Desculpe, Edgar. É que…

— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima ideia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”.)

— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?

— Certo, Edgar. E desculpe, hein?

— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.

— Isso.

— Reunir a velha turma.

— Certo.

— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca…

— Bituca.

— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?

— Tchau, Edgar!

Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.

domingo, 5 de abril de 2015

Serra da Canastra

A viagem à Serra da Canastra estava engatilhada desde o último feriado prolongado, a saber, desde o feriadão de Carnaval. A ideia inicial era juntar a turma, pegar a bicicleta e sair pedalando pela estrada a fora até a Serra da Canastra — indiferente àquela festividade "imoral e pagã" que assolava o país inteiro. Mas no dia D, conforme o esperado, todo mundo deu para trás, claro. Era carnaval, oras, sinônimo de muita festa e esbórnia e gandaia. O certo é que, em termos de folia, o feriado de Páscoa é bem menos representativo que o de Carnaval, então dessa vez não houve desculpa possível.

Saímos de São Paulo na quinta-feira (2) às 19h e fizemos o primeiro trajeto de carro. Depois de aproximadamente 9 horas de estrada e 600km percorridos, chegamos em Belo Horizonte muito cansados. Dormimos na casa da minha tia Vera, onde deixamos o carro e uma imensa bagunça, diga-se de passagem. Por volta das 15h, devidamente descansados e alimentados, já estávamos pedalando pela BR-262 rumo a São Roque de Minas. O sol estava muito escaldante, como bem ressaltou a tia Vera, o calor estava mesmo de rachar mamona no asfalto. Só que ninguém fez corpo mole.

O início de uma viagem realizada em grupo sempre tem um ânimo diferente. Não só o início, acho que a viagem inteira. Para dizer a verdade, o mais legal de pedalar com os amigos é a certeza de saber que um está ali para auxiliar o outro, aliás, é esse o verdadeiro sentido de qualquer equipe, seja profissional ou só de fim de semana.  

PRIMEIRA PARADA: DIVINÓPOLIS
Como já disse, saímos de Belo Horizonte pela BR-262 até uma entrada antes de Pará de Minas, virando à esquerda numa rodovia (não lembro o nome agora) que vai para Divinópolis (esse caminho é mais bonito, por causa das montanhas, mas também é um pouco mais longo). Esse trecho de estrada foi muito bom de fazer, tinha um bom acostamento e um bom pedaço só com descida. Chegando em Divinópolis, encontramos um posto que pertence a empresa que administra a MG-050 e que serve para descanso dos motoristas. Esse tipo de lugar é sempre uma mão na roda para quem precisa descansar: oferece sombra, água fresca, loja de conveniência e até chuveiro elétrico. Depois de voltar para a rodovia, tivemos que ficar um pouco mais atentos, pois apesar do acostamento, as duas pistas estavam movimentadas.

Não marquei exatamente a distância, mas um pouco antes de São Roque de Minas, pegamos um atalho de terra que, para a minha desgraça, acabou se tornando uma espécie de estrada de areia movediça. Sério, dava até para pedalar, mas pelo que me lembro, ganhar velocidade era quase impossível. Por pouco não fomos tragados. Confesso que não teve muita graça. No começo da noite, já em São Roque de Minas, paramos em um vilarejo pequeno e muito calmo, me senti seguro a ponto de deixar a bicicleta do lado de fora da pousada, não sem antes pedir autorização ao dono. Minha ideia era dormir até morrer, mas fui o último a pegar no sono e o primeiro a acordar.

Acordei antes mesmo do dia clarear e tomei um café da manhã reforçado (matei a saudade de comer cuscuz de milho). Depois do cafezão da manhã, arrumamos tudo e seguimos finalmente para a tão esperada Serra da Canastra. Aquele lugar fantástico!

SUBINDO AO CÉU
Foram aproximadamente 5km de descida, em uma estrada de terra cheia de pedras e buracos, o cenário perfeito para levar muitos tombos. Felizmente sou muito habilidoso e não levei sequer uma queda. Depois de um pouco de descida, realizada a contento, veio a subida mais desumana que já enfrentamos em todos esses anos (poucos) de bicicleta. Uma ladeira capaz de provocar cãibras até onde Deus duvida. E quando pensamos que havia acabado: mais subida. Depois de subir quase até o céu, alguns quilômetros pedalando vigorosamente, só o que se pode esperar é mais um pouco de subida. Dica para a vida: não vale a pena encarar esse trecho no final do dia, sob pena de perder o movimento das pernas. Mas verdade seja dita: não me arrependo nenhum pouco, apesar das ladeiras, foi o trecho mais bonito da viagem.

Pode parecer besteira da minha parte, mas pedalar ouvindo o barulhinho de água e olhando cachoeiras do alto faz a gente esquecer qualquer dificuldade por pior que seja. As ladeiras eternas, as cãibras na panturrilha, as dores nos músculos. Tudo vira detalhe.

CANASTRA PARTE ALTA

A viagem de volta foi bem tranquila, feita em um ritmo bem mais leve, sem surpresas no caminho e o tempo gasto foi bem menor também. Ou seja, como costuma ser o retorno de qualquer viagem. Conhecer a Serra da Canastra, mesmo que sem muito tempo para aproveitar todas as coisas, era uma vontade que me acompanhava desde a adolescência, algo que sempre quis fazer. Dessas vontades que a gente tem, mas que, por qualquer razão, vai deixando para depois. Agora já posso riscar esse item da lista.

PRINCÍPIO DA VIDA

segunda-feira, 30 de março de 2015

Réquiem

Chegou bem perto da janela. Olhou para baixo. Viu os prédios, as pessoas e viu a calçada. Passou alguns minutos olhando para a calçada. Eram 9 andares abaixo dele. Ficou pensando e ponderando em termos físicos: aceleração da gravidade — 10m/s², logo 9x3, aproximadamente uns 27 metros. Mas ainda tem o primeiro e o segundo subsolos (que desse lado do prédio ficam à altura do solo) e o térreo, então na realidade tem uns 11 andares (uns 32 metros chutando por baixo). Havia esquecido a fórmula, mas sabia que seria uma porrada e tanto contra o solo. Continuou olhando a calçada e pensando se cairia sobre ela ou sobre o asfalto. Depois ficou cavucando as memórias. Se lembrou de várias coisas, sobretudo, de uma música: Construção, do Chico Buarque.
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Boa música, essa. Pensou em procurar o cd para escutar no carro. Seu carro, comprado há pouco tempo, estava novo ainda. Com quem iria ficar? Com uma de suas irmãs, provavelmente. Mas queria deixar para algum amigo, alguém que não fosse da família, mas que também fosse importante na sua vida. Como um presente póstumo. Tentou encontrar o nome de algum conhecido que correspondesse a essa descrição. Ninguém.

Depois imaginou seu enterro. Achou graça de imaginar o próprio enterro: as pessoas chorando em volta do caixão, pessoas que mal conhecia, chorando e lamentando sua morte, só porque tinham algum grau de parentesco ou coisa que o valha. O que será que falariam a seu respeito? Sempre dizem mentiras a respeito do morto nesse tipo de ocasião. Dizem que era um bom sujeito, que era inteligente, que era legal, que tinha futuro, que isso e aquilo. Tudo conversa. Será que chamariam seus colegas de trabalho?

Mudou seu foco.

Lembrou-se de algumas meninas. Será que alguma delas tomaria conhecimento? Provavelmente não. Só muito tempo depois, mas nem iriam chorar. Pensariam que foi uma pena, mas não dariam muita importância. Analisando friamente ele via que não fazia muita diferença na vida de qualquer pessoa. Talvez tivessem que contratar carpideiras (será que ainda executam essa função?). Não teria quase ninguém, afinal.

Olhou-se e pensou em quanto ficaria o caixão. Será que o seguro de vida seria o bastante para cobrir o gasto? Não lhe agradava a ideia de trazer prejuízos a sua família.
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Uma voz despertou-lhe da divagação suicida:

– Conferiu o orçamento da próxima etapa da obra que mandei pra você?

– Sim. Aliás, tive que refazer tudo, estava completamente errado.

...


Às vezes, a incompetência humana pode salvar vidas.